sábado, 6 de fevereiro de 2010

A hermenêutica das fotos dançantes

O comentário do Felipe ao post "Estilo importa" motivou uma resposta. Ia responder por e-mail, mas acabou que a mensagem virou um quase-post, que, com algumas adaptações, virou post. Voici.

Fico tão feliz quando "as pessoas" (tanto mais quando são grandes amigos e leitores qualificados!) comentam sobre e gostam do que escrevo. Afinal de contas, escrever dá trabalho, blogar dá trabalho... Ter um reconhecimento de vez em quando é bom e me motiva a continuar. :)

Imagina: ter o meu texto dissecado num vestibular seria uma honra enorme! Um dia, quem sabe. Outro dia, talvez, vou publicar um artigo no American Journal of International Law. Um dia, quem sabe, alguém vai me pedir uma carta de recomendação! Deve ser muito legal estar "do lado de lá". (Aspas, ponto.) Um dia, espero.

Embora não seja professor, gostei do exercício de hermenêutica proposto pelo Felipe:

"Vimos fotos tuas dançando [...] na minha formatura".

(Aspas, ponto. Se a frase do Felipe terminasse com "na minha formatura", poderia muito bem ser: "Vimos fotos tuas dançando [...] na minha formatura." Ou seja: ponto, aspas. E sem ponto depois das aspas.)

Abstraindo do contexto, consigo pensar nas seguintes interpretações para a frase (claro que apenas a primeira é séria):

  • Martin dançou na formatura de Felipe. Esse momento tragicômico foi registrado em fotos. Karina e Felipe viram essas fotos recentemente.
  • Martin tirou fotos durante a formatura de Felipe. Um dia desses, Karina e Felipe dançavam, enquanto viam (sei lá, num telão) essas fotos.
  • Martin aparece em fotos tiradas durante a formatura de Felipe. Um dia desses, Karina e Felipe dançavam, enquanto viam (num telão, de novo?) essas fotos.
  • Martin tirou certas fotos. Elas foram exibidas (num bom e velho telão) durante a formatura de Felipe. Karina e Felipe, enquanto dançavam durante a formatura, viram essas fotos.
  • Martin aparece em certas fotos. Elas foram exibidas (onde? que tal num telão?) durante a formatura de Felipe. Karina e Felipe, enquanto dançavam na formatura, viram essas fotos.
  • Martin tirou fotos durante a formatura do Felipe. Um dia desses, essas fotos estavam dançando por aí. Karina e Felipe viram as fotos dançantes.
  • Martin aparece em fotos tiradas na formatura de Felipe. Um dia desses, essas fotos estavam dançando. Karina e Felipe foram testemunhas oculares da dança das fotos.
  • Martin tirou certas fotos. Elas dançaram na formatura de Felipe. Na ocasião, Karina e Felipe viram as fotos dançantes.
  • Martin aparece em certas fotos. Elas dançaram na formatura de Felipe. Na ocasião, Karina e Felipe viram as fotos dançantes.

Tudo bem, admito que me puxei um pouco. Mas me justifico: enquanto escrevo este post-resposta, percebo que meu colega de apartamento está ouvindo valsas vienenses. Não tenho bem certeza, mas acho que é Johann Strauss.

(O autor das valsas vienenses, não o meu colega de apartamento! Mais: o autor das valsas e o meu colega de apartamento não são a mesma pessoa! Bah, bem que eu gostaria que fossem, mas ele está morto. [Quem morreu foi Strauss, faz mais de um século. Meu colega de apartamento está vivo e ouvindo Strauss. {Meu colega de apartamento está ouvindo músicas que Strauss compôs; não está ouvindo o próprio Strauss.}])

Divagações à parte: ouvindo a música, fiquei imaginando fotos que dançam ao som de valsas vienenses. Neste momento, Vir (minha mamá greco-argentina) perguntaria: "¿fumaste cosas raras?"

(Ponto de interrogação, aspas. A interrogação faz parte do que Vir perguntaria. E não há necessidade de ponto final depois das aspas: o ponto final faz o serviço.)

Aparentemente não consigo mais não divagar nos meus posts.

(Prova disso é que aqui me obrigo a fazer mais um comentário parentético metadiscursivo: o que acabo de dizer, "não consigo mais não divagar", é algo que a minha professora de escrita jurídica desaconselhou um dia desses – dupla negação.)

Divagações à parte, segunda tentativa: não, não fumei cosas raras. Nunca fumei. É tudo efeito das valsas vienenses.

Paro por aqui. Preciso dançar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

555

Alguns affairs hoje em Midtown. Na ida para o Carnegie Hall (ingresso de estudante para a New York Philharmonic!), uma foto na esquina 555.


5th Ave & 55th St
The St. Regis & The Peninsula

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Estilo importa

Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo – por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões e vírgulas –, embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. "Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma", ressalta o Guri.

O trecho acima, além de expressar uma observação verdadeira minha, serve bem como ponto de partida para este post. As convenções de estilo que adotei no trecho são as que aprendi "com a vida" no Brasil e que uso consistentemente quando escrevo em português, inclusive aqui no blog. Nesse trecho não há nada de "estranho" para olhos brasileiros, né? Assim é porque estamos acostumados a ver o uso dessas convenções em jornais, revistas e livros de forma tão frequente e natural que as aceitamos e reproduzimos sem nem perceber.

Mas olha só como as convenções podem ser diferentes: pronto. Que tal? Acabei de fugir da convenção brasileira. Não dá pra ver? [Edit: Não dá mesmo pra ver: basta publicar no blog que a diferença desaparece! A autoformatação do blogger.com estragou meu texto.] É sutil: dois espaços após os dois pontos ou após o ponto final, convenção conhecida como double spacing, English spacing ou American typewriter spacing. (Sigo usando-a neste parágrafo.) Uma amiga canadense, eu acho, é que me disse para usar o double spacing em inglês, mas só comecei de fato a usá-lo quando fiz o estágio nas Nações Unidas: está no manual de estilo do secretariado. Desde então, comecei a observar que a convenção é bastante aplicada em documentos oficiais das Nações Unidas (em inglês). Mas nem sempre.

A mudança mais chocante, porém, foi quando vim para a NYU e entrei em contato com as convenções daqui, sejam elas específicas da área do direito ou gerais para a redação em inglês. (Parei de usar o espaço duplo. Aliás, bom começo: nos EUA não se usa [mais] o espaço duplo após os dois pontos ou após o ponto final. Até há quem ainda insista em usar, mas os manuais de estilo não recomendam.) Para tirar dúvidas que tenho de vez em quando, visito a versão online do Chicago Manual of Style (CMS). Algumas regras me agradam; outras, nem tanto.

O uso da vírgula serial (ou vírgula de Oxford) me agrada. Vírgula serial é a que separa o último elemento de uma lista. No trecho inicial deste post, eu citei como exemplos de convenções de estilo as relativas ao uso de aspas, travessões, e vírgulas. Essa última vírgula aí, entre "travessões" e "e vírgulas", é a vírgula serial. Sim, é provável que tenhas ouvido da tua professora de português do ensino fundamental que "vírgula + e" era uma construção absolutamente inaceitável em português. Mas, pensando bem, talvez esse seja mais uma regra absoluta da professora de português do ensino fundamental que mereça (a regra!) ser flexibilizada, especialmente nos casos em que uma vírgula serial pode ajudar a evitar uma ambiguidade.

Clássico é o exemplo da Wikipédia. Imagina uma dedicatória de livro escrita assim: "Para meus pais, Amy Rand e Deus". A quem o livro é dedicado? Talvez seja evidente: (1) aos pais de quem escreveu o livro, (2) a Amy Rand e (3) a Deus. Mesmo assim, não se pode negar que existe uma ambiguidade: "Amy Rand e Deus" pode ser um aposto explicativo, ou seja, uma explicação do termo anterior. No nosso exemplinho clássico, quem escreveu pode ter querido dizer: "Para meus pais, [que são] Amy Rand e Deus". Ok, improvável. Mas possível. E a simples possibilidade de uma ambiguidade justifica o uso de uma vírgula serial, "só pra garantir".

À primeira vista não gosto de regras absolutas: nem da regra absoluta da professora de português do ensino fundamental ("vírgula serial: nunca") nem da regra absoluta do CMS ("vírgula serial: sempre"). Gosto mesmo é de abordagens flexíveis, como esta: "vírgula serial: quando evitar ambiguidade". Afinal, uma vírgula serial em "aspas, travessões, e vírgulas" não me parece ter grande utilidade prática (e o que aparentemente não tem utilidade pode vir a causar problemas e talvez deva ser removido – um argumento que valeria tanto para o não-uso de vírgulas seriais quanto para cirurgias preventivas de remoção de apêndice...?). Por outro lado, também gosto de abordagens consistentes, algo que a abordagem flexível que acabo de apresentar não parece ser. Sendo assim, prefiro a regra absoluta do CMS. "Vírgula serial: sempre." Se me condenarem pelo uso da vírgula serial à toa, sem haver ambiguidade a solucionar, posso me justificar: "bom, pelo menos fui consistente."

Se a vírgula serial é o que eu gosto no CMS, há aspectos dos quais não sei se gosto muito. Um deles é o travessão (m-dash): ele é mais longo que o comumente usado em português (mais longo que o traço, "meia-risca", que aparece no Word quando se coloca um hífen entre duas palavras – este!). Além de mais longo, o travessão em inglês não é separado das palavras adjacentes. Uma expressão parentética típica na convenção brasileira – como esta – torna-se bastante diferente—como esta—na convenção do CMS. Ahá! Acabo de violar – intencionalmente, é claro – uma convenção comum ao estilo brasileiro e ao do CMS: não se deve usar, em uma mesma frase, mais de uma expressão parentética com travessões. Se for mesmo preciso fazer mais de uma – o que (na minha modesta opinião) pode ser um forte indicativo de redação ruim –, usam-se parênteses (como acabo de fazer) ou vírgulas.

A última frase do parágrafo anterior me traz a uma das coisas de que não gosto no CMS: se uma vírgula normalmente seria necessária—mas se se resolve incluir uma expressão parentética com travessões, como esta—não se deve pôr vírgula após o segundo travessão. Dá pra sentir a falta da vírgula antes de "não se deve [...] travessão"! A convenção brasileira me parece melhor nesse aspecto: se uma vírgula é necessária – ainda que se resolva incluir uma expressão parentética com travessões, como esta –, a vírgula deve aparecer (como acabou de aparecer!) após o travessão, ora. Ela é necessária e pronto. O travessão não a substitui.

E a última coisa (por hoje?) de que não gosto no CMS é que "vírgulas precedem as aspas," assim como acabo de fazer, e também assim: "pontos finais precedem as aspas." Não gosto. Prefiro "vírgulas fora das aspas", bem como "pontos finais fora das aspas". É mais lógico. O próprio CMS reconhece isso, mas diz que "usos tipográficos" ditam que pontos finais e vírgulas precedam as aspas.

O problema é mais profundo do que parece. Se eu escrever que, segundo o Guri, "é mais lógico que vírgulas e pontos finais fiquem fora das aspas," incluindo a vírgula dentro das aspas, minha frase sugere que a opinião do Guri é que tem uma vírgula e que talvez continue depois dessa vírgula; porém, na verdade a vírgula pertence à minha frase a respeito da opinião do Guri. Enfim: se a vírgula é minha, é minha; se é do Guri, é do Guri, e só se for do Guri vou querer atribuí-la ao Guri, porque seria impreciso (e talvez desonesto) dizer que o Guri disse vírgulas que de fato não disse. Como aqui o Guri sou eu mesmo, não há risco, mas pode haver situações em que o risco de imprecisão e desonestidade seja alto.

Comecei com a convenção corrente no Brasil:

Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo – por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões e vírgulas –, embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. "Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma", ressalta o Guri.

E termino com a convenção do Chicago Manual:

Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo—por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões, e vírgulas—embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. "Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma," ressalta o Guri.

Esse "jogo dos sete erros" é irrelevante, "a distinction without a difference"? Quanto à mensagem, é claro que não há diferença. Mas a percepção de quem lê pode ser bem diferente. Nos EUA alguém pode estranhar um texto em língua inglesa usando estilo brasileiro, assim como no Brasil alguém pode estranhar um texto em língua portuguesa usando o estilo de Chicago. Esse "estranhar" da parte de quem lê pode variar entre, num extremo, um desconforto motivado pela aversão ao incomum e, no outro extremo, a sensação de que quem escreveu é incompetente. Para evitar esse segundo extremo, que é mais dramático, acho que vale aqui adotar uma abordagem flexibilidade–consistência: com flexibilidade, cuidar para usar em cada contexto o estilo apropriado e, com consistência, usar apenas um estilo em cada contexto.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Edwards v. McCloskey

Edwards v. McCloskey é o caso que estou estudando agora. Prometo que é interessante. Também garanto que não é falta de ética profissional minha revelar os detalhes.

O argumento de Edwards é o seguinte:

"What the reader needs in [an] umbrella section is a road map of the organization to follow." (Edwards, Legal Writing and Analysis, p. 113)

"O que o leitor precisa em uma seção guarda-chuva é um roteiro [literalmente: mapa do caminho] da organização que seguirá." (Traduzi así nomás.)

Por sua vez, McCloskey argumenta:

"The table-of-contents paragraph is an abomination to the Lord thy God. […] You will never see it in competent writing. Weak writers defend it as a 'roadmap'." (McCloskey, Economical Writing: An Executive Summary, p. 240)

"O parágrafo-sumário é uma abominação para o Senhor, teu Deus. Nunca o verás num texto escrito de forma competente. Escritores fracos o defendem como um roteiro [literalmente: mapa do caminho]." (Traduzi así nomás.)

No papel de observador externo (aqui sou estudante), sem obrigação de manter imparcialidade (aqui não sou juiz) nem de defender um ou outro ponto de vista (aqui não sou advogado), e além disso escrevendo um post no meu blog e não um texto acadêmico ou jurídico (ou seja, aqui sou praticamente um estudante de férias!), sinto-me com total liberdade para expressar minha preferência pessoal categoricamente: sou pró-McCloskey (e não é de hoje).

Outro dia, quem sabe (pra deixar bem claro: não é um compromisso!), tiro um tempinho para refletir e escrever mais aprofundadamente sobre a questão de fundo desse caso: é possível conciliar o aprendizado de técnicas americanas de escrita jurídica sem renegar princípios de redação mais abrangentes e aparentemente mais razoáveis?

P.S.: Fala sério, vou ter que fazer um disclaimer: o caso que menciono aqui é uma obra de ficção. Poderia dizer que não é ficção, porque o dilema é real, mas digo que é ficção, sim, porque eu é que tive a ideia de apresentar o dilema como se fosse uma disputa judicial. Enfim, deixo claro que meu caso fictício é mesmo fictício e nada tem a ver com o "caso da vida real" Edwards v. McCloskey Motors ou qualquer outro em litígio por aí afora...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Tabelionato, química, jardinagem

Ainda no post anterior comentei que uso o blog do Guri como memória auxiliar: às vezes revisito meu próprio blog pra relembrar coisas que aconteceram comigo. É assustador que se apaguem da minha memória situações que eu mesmo vivi. Também há momentos em que fico perplexo com a quantidade e a diversidade de informações que tenho na caixola e que nem sempre sei como ou por que foram parar lá.

Recentemente meu pai escreveu dizendo que precisava reconhecer minha firma num documento. Gelei: "nunca abri ficha pra reconhecer minha firma no Brasil". No mesmo instante comecei a ver como fazer isso no consulado brasileiro aqui em Nova Iorque (e a sofrer por antecipação com toda a trabalheira que esse procedimento haveria de me dar). Mas respondi para o meu pai, "Só pra ter certeza, vai ao Primeiro Tabelionato de Pelotas; tenho a impressão de que minha firma possa estar lá. Se é que está em algum lugar, só pode ser lá".

Lá foi ele e, pro meu alívio e pra minha surpresa, reconheceu minha firma. Inexplicável. Um belo dia, num passado que não pode ser tão distante assim (não sou tão velho, ora!), eu me abalei até o tabelionato na Anchieta, retirei ficha, esperei ser atendido, pedi para depositar firma, assinei um cartão-autógrafo, e fui embora. Como pode que não me lembro de absolutamente nada disso? Tampouco me lembro de por que fiz isso. Alguém já tinha precisado reconhecer minha firma? Eu mesmo, talvez? Não faço ideia. Mas taí. Se alguém precisar reconhecer minha firma, já sabe onde pode fazê-lo.

Mais dois casos chocantes aconteceram comigo ontem. Fui com um grupo de amigos da igreja a Jersey City (do lado de lá do Hudson, "ali no outro estado"!), para visitar duas outras amigas da City Grace que moram lá e que nos convidaram para uma noite de jogos. Na maior parte do tempo jogamos Cranium, um divertido jogo de tabuleiro à la "Imagem e Ação". Só pra dar uma ideia melhor do jogo, os desafios estão divididos em quatro categorias:

  • Creative Cat: um dos jogadores do time tenta fazer o outro adivinhar uma palavra através de desenho, escultura, ou desenho de olhos fechados.
  • Data Head: perguntas de conhecimentos gerais, curiosidades.
  • Word Worm: os jogadores do time desembaralham palavras, soletram palavras (às vezes ao contrário, quer dizer, do fim pro início da palavra), adivinham definições, identificam palavras com letras omitidas.
  • Star Performer: um dos jogadores do time assobia ou "murmura" (bocca chiusa; canta fazendo mmm) uma canção, imita uma celebridade, ou faz mímica, e o outro adivinha.

Formei time com o Ryan. Fechou todas: o Ryan é ator (formado em teatro) e músico (pianista, cantor, líder de banda), então ficava com as coisas artísticas (Creative Cat e Star Performer); eu, o estudante nerd que gosta de palavras, ficava com as coisas de estudante nerd que gosta de palavras (Data Head e Word Worm).

Tivemos alguns lances de sorte: uma das músicas pra cantarolar de boca fechada era The Girl from Ipanema (Garota de Ipanema). Quando eu vi, minha reação só pôde ser, "dude, I'm so ready for this". Mais tarde veio a definição de "illicit", barbada pra advogado. Só não ganhamos o jogo por falta de sorte nos dados. ;)

Houve momentos bastante emocionantes no jogo (especialmente quando a competitividade aguda de alguns, nos quais me incluo, vinha à tona), mas me restrinjo a relatar os exemplos de perplexidade (própria e alheia) quanto à aleatoriedade de meus conhecimentos.

Uma das perguntas do Data Head foi: "Qual é o elemento químico mais comum na atmosfera terrestre?". Nitrogênio. Certo. Tudo bem que eu até participei de olimpíada de química no ensino médio, mas devo ter estudado os elementos predominantes da atmosfera lá pela quinta ou sexta série do ensino fundamental, e depois não mais. Como é que eu ainda me lembro disso? Fico até triste por me lembrar. Prefiro ter livre esse espaço na memória pra guardar outras coisas!

Mas o mais chocante da noite foi um desafio de verdadeiro ou falso do Data Head. A afirmação era algo do tipo: "Figuras geométricas e simetria são características do estilo inglês de jardinagem ou paisagismo". Ora, para alguém com o meu background (estudos em economia e direito; conhecimentos sobre mudança climática, música, idiomas... mas longe de saber algo sobre jardinagem), a reação mais natural a uma pergunta dessas não poderia ser senão: "hein?!".

Eu, porém, comecei a pensar alto: "Verdadeiro... não, peraí. A tradição francesa de jardinagem, e não a inglesa, é que tem traços de formalismo, racionalidade e simetria, com figuras geométricas e organização mais 'quadradinha'. Os jardins ingleses são mais naturais, românticos... A afirmação é falsa." Nem precisava explicar nada; bastava dizer falso ou verdadeiro. Mas provei que não era chute.

Acertei. A afirmação era mesmo falsa. Pedi pra ler a explicação da resposta no verso do cartão, e a explicação era, embora obviamente não com as mesmas palavras, a mesma que eu tinha dado. Agora... não faço ideia de onde tirei essa explicação. Onde e quando e por que cargas d'água eu aprendi a diferença básica entre um jardim inglês e um jardim francês? É perturbador.